Pedro, era filho, único, de um casal abastado de Trás-Os-Montes, que viera para o Porto estudar.
Inês, era filha do campo. A tez, trigueira, não enganava a suas origens.
Crescia em sabedoria, alegre e bem educada.
Os pais eram camponeses, humildes e trabalhadores, de Penafiel.
Laboravam com afinco, para que a filha pudesse ter uma boa educação. Começavam a trabalhar mal o sol despontava, e só se iam embora do campo depois do sol se pôr.
Os patrões, um juiz desembargador e a esposa, viviam no Porto e passavam os fins de semana em Penafiel.
Quando, ali, chegavam, a casa estava sempre limpa, fresca e arejada. Flores frescas na jarra e fruta acabada de apanhar por Inês.
Observavam os vastos terrenos, e reconheciam o esforço do casal e a cortesia da miúda, como lhe chamavam. Foi num desses dias, enquanto conversavam que decidiram que era hora de os ajudar!
Iriam levar Inês para o Porto, para que pudesse estudar.
Os seus pais não poderiam ter ficado mais felizes. Deus, tinha atendido as suas preces!
- A nossa filha, vai ser uma senhora! (dizia o pai).
Pedro e Inês andavam sempre juntos.
Ora aos segredinhos, ora com risadinhas... por vezes davam as mãos, outras vezes corriam e abraçavam-se. Faziam-no com, tanta, naturalidade e nem se apercebiam.
Ninguém duvidava do amor que os unia.
O brilho no olhar não escondia o sentimento que lhes ia na alma.
Foi num desses dias, depois das aulas, enquanto falavam distraidamente que a Mariazinha (uma idosa simpáticas) os interpelou:
- Para quando o casório?
- Casório? (espantou-se o Pedro) - não fui convidado! Quem é que vai casar?
- Vocês, claro! - Ora, agora, não me digam que não pensam nisso?!
(Pedro ficou embasbacado)... - Casar, eu?! Oh, Mariazinha, não diga disparates! - Eu nunca vou casar!
(claro está, o Pedro nem raciocinou).
Inês, ao escutar Pedro, desatou a correr e só parou à porta de minha casa.
Recordo, como se fosse hoje!
Abri a porta depois de ouvir alguém chamar-me. Inês chorava copiosamente.
Ao vê-la, assim, estendi-lhe os braços e perguntei-lhe se o mundo iria acabar. Só poderia ser isso (pensei, eu) afinal, Inês sempre fora o reflexo da felicidade!
Ela dirigiu-se ao quarto do meu filho, mais velho, uma criança naquela altura, e deitou-se. Dormiu durante horas.
Os meus filhos ficaram confusos por a verem naquele estado. Estavam habituados, apenas, às suas brincadeiras. Expliquei-lhe que a Inês estava doente e que se eles não fizessem barulho a dor lhe passaria mais depressa. Vejo os dois, como se fosse hoje, sentados no chão a contemplá-la.
Passados uns minutos, saíram pé ante pé. Nesse dia não fizeram qualquer ruído e dormiram juntos.
Durante a noite, eu e o meu marido, fomos diversas vezes ao quarto só para escutar a respiração de Inês.
No dia seguinte, próximo da hora do almoço, Inês veio ter connosco à cozinha.
Tive que a convencer a comer alguma coisa.
Deu uma, pequena, dentada numa maçã e começou a desabafar que o Pedro nunca gostara dela e que não sabia como seria a sua vida sem ele.
Contou a conversa com a Mariazinha e o que Pedro respondera.
Escutei-a, sem qualquer interrupção... e ela lá continuou... dizendo que o Pedro era um menino rico, e ela, (palavras de Inês) - "sou apenas a filha de camponeses"!
- Não! (disse-lhe eu) - Tu és a Inês! - Os teus pais, são pessoas de bem, trabalhadores, de quem te deves orgulhar! - Se estudas é graças ao esforço dos teus pais! - Se o Pedro gostar de ti, e não duvido disso, explicar-te-á o que se passou. - Tu fugiste... simplesmente...
Inês voltou a chorar e soluçava baixinho, para que não a ouvíssemos.
O meu marido foi abrir a porta, a alguém.
Quando me virei para ver quem seria, vi a cara de Pedro. Parecia que alguém tinha morrido. Um rosto e um olhar sofrido...
- Inês (disse, Pedro, receoso) - estás bem? - peço desculpa se te magoei, gosto muito de ti, sabes disso, não sabes?! - sabes que gosto, apenas, de ti. Que é contigo que quero passar todos os meus dias.
- Fiquei paralisado quando fugiste, e imaginei que tinhas ficado ofendida com as palavras da Mariazinha.
Não dormi toda a noite. De manhã não te vi na escola e fiquei aflito.
Podes não gostar de mim, do mesmo modo que eu gosto de ti, mas não suporto ver-te distante.
Pedro ia dizer-lhe que poderiam ser amigos, se fosse esse o seu desejo. Todavia, não teve oportunidade para o fazer.
Inês abraçou-se a ele e choraram e riram e voltaram a chorar os dois
Passaram-se sessenta anos...
Pedro e Inês viajaram e conheceram mais de metade do mundo.
Amanhã serão as suas bodas de ouro.
O neto mais velho levará as alianças. Dizem que provavelmente voltarão a viajar... quem sabe, Las Vegas?!
Viva a ternura, a cumplicidade e o amor!
Que lindo! :)
ResponderEliminarObrigada amiga! Beijinhos.
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